segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Moinho


Cartola cantou que o mundo é um moinho.
O mundo é um moinho triturador de sonhos.
Por muito tempo acreditei que era assim,
que todas as apostas que eu faria na vida seriam em vão,
 porque tudo se vai.
A efemeridade da vida me assustava
e me congelava na zona de conforto.
O mundo é um moinho e em pouco tempo
 não serás mais o que és.
Em alguns anos eu perderia a essência jovem e aventureira
 que outrora fazia morada em mim.
 Onde ficaram todos os planos de conhecer o mundo,
de escrever vários livros, de cantar nos bares,
 de comer comidas exóticas...
Onde ficaram os planos de correr atrás dos sonhos?
A efemeridade do ser ainda me assusta.
O mundo é um moinho e quando notares estará à beira do abismo...
Abismo que cavaste com teus pés.
Não quero acreditar que um dia olharei para o que vivi
e perceberei que apenas existi.
Não se aproxime do abismo.
Aprendi hoje que os obstáculos que enfrentamos
muitas vezes são postos por nós mesmos.
O que nos impede de ultrapassá-los?
De que temos medo?
O mundo é um moinho...
Dando voltas e voltas...
E nós somos constante transformação.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

J.

"-CA-RA-LHO! o que é a gente?''

ah, amor se eu te disser o que a gente é...
a gente é a mais bela confusão criada pelos deuses
a gente é pura combustão
a gente é puxão de cabelo, mordida no ombro, beijo demorado
a gente é fogo
a gente é colisão
a gente é calafrio, calor, tudo ao mesmo tempo
a gente é carinho, abraço, afago
a gente é afeto
que afeto?
talvez amor?

é... a gente é amor.

Senhora da Noite


O dia lá fora é nublado e eu não ouço pássaros cantando, meu jardim há muito não floresce, mas eu já não me importo em regar os brotos. Faço um café fraco, com dois pingos de adoçante, e assisto o jornal matinal que não noticia nada que me prenda a atenção. Escuto minhas "colegas" de casa. Algumas roncam, outras tomam banho, deixando sair pelo ralo toda a dor e a angústia, o gosto da noite passada. Me arrasto pelas escadas em direção ao meu quarto e visto a primeira camisola puída que encontro, suspiro, vou cumprir minhas tarefas domésticas.

A tarde passa lentamente e eu tenho uma pausa para assistir minha novela e penso como seria minha vida se eu fosse a mocinha rica e feliz que deveria ser. Se eu fosse eu mesma em tempo integral, se não tivesse que fingir e manipular para sobreviver. Mas eu não nasci para ser mocinha. Nasci pra ser Soraya. Sou filha de pais ricos e esnobes, mas não cresci como eles desejavam. Reneguei minha família para viver por conta própria, ou como ele pensam, para me arruinar. Essa foi minha escolha. Ser atriz.

A noite chega e antes do despertador velho tocar, avisando que o espetáculo está prestes a começar, eu me visto. Faço do espelho surrado, camarim e do vestido curto de lantejoulas, figurino. Saio de casa com minhas "amigas": é hora do show.

Nos colocamos em posição, a noite é fria e o vestido curto incomoda. A esquina não está bem iluminada. Faço uma careta de repugnância, imaginando novamente como setria se tivesse sido o que meus queridos pais planejaram. Observo uns carros passarem e outros poucos pararem para levar minhas companheiras. Eu me vejo sozinha.

Com frio, bêbada e sozinha.

Acendo um cigarro, começa o segunto ato.

Um homem alto e moreno, meu diretor, para no seu imenso 4x4 e me chama. "Dá uma volta pra eu conferir se vale o preço". Depois de convencê-lo entro no carro, não é meu primeiro dia de apresentação, mas meu coração martela na caixa toráxica.

O homem, com seus trinta e poucos anos para na primeira pousada que encontra. Vai ser a parte mais longa da noite. Ele entrega as chaves do carro para o recepcionista e me arrasta para o muquifo de três cômodos no quarto andar.

O banheiro, pequeno e mal lavado, cheira a sexo. A sala dividida tem um pequeno sofá de dois lugares e um fogão de duas bocas, ao lado do frigobar. E no centro, o meu palco, mais importante, a cama enorme e redonda. Pela aparência do homem eu sabia que ele podia ter escolhido um lugar mais luxuoso, mas não me daria essa satisfação. A minha vontade não importa. Afinal, ele nem me conhece.

A primeira metade do terceiro ato é rápida, eu tenho que ficar parada o tempo todo enquanto o meu diretor se delicia. Viro meu rosto para o lado, sentindo-o dentro de mim. Olho minhas roupas de cena no chão poeirento, junto às pontas de cigarro e à garrafa de vinho mixuruca. Tudo para não ver o prazer estampado no rosto do homem.

Chega a hora do ato final, a derradeira cena.

Enquanto permaneço me contorcendo por um prazer fingido e chulo, meu diretor se veste rapidamente."Toma, vadia" ele joga meu pagamento ao meu lado. Não o vejo ir embora, as lágrimas encobrem meu rosto. Acaba o espetáculo, sem palmas. Eu adormeço e expulso as emoções para fora de mim. "Foi a minha escolha", penso. É o que eu sou, o que sempre vou ser.

Uma atriz sem consagração, sem prêmio, esperando pelas palmas, pela ovação de sua platéia.

Mas palmas não virão no fim.



Cotidiano

Eu vejo os carros passarem

Os prédios coloridos em cinza

Vejo o céu nublado e carregado de estática

Vejo o suor dos andarilhos na calçada:

É meio-dia.

Tudo para. O calor sobe à cabeça.

Transpiração

Vejo o cabelo desgrenhado

 da jovem à minha frente

ela dorme

Fecho os olhos

Ouço as buzinas e os palavrões do estresse

Uma criança chora

“Mamãe está quente”

Meus pensamentos são ofuscados

pela impaciência e desconforto.

Espero por um ato inesperado

Voar por cima dos automóveis parados

Passando pelas árvores até alcançar o sossego

Escuto o gotejar lento no teto

E sinto respingos escorrendo em meu rosto

Abro a janela e sorrio

Sinal verde

Paz, enfim.

31.07.10




O tempo passou e eu mudei.
Não somente minha aparência agora é apática, mas existe um buraco onde meu coração deveria existir.  As palavras antes ditas com emoção e verdade hoje me fogem, tem medo de quem me tornei. Um bêbado solitário e desalmado.
Eu queria ser um grande poeta e, no entanto, fui esquecido na esquina dos menos afortunados. As minhas melodias se perderam sem serem registradas, sem terem chance de se mostrarem ao mundo – belas e gostosas de ouvir.
Vago de bar em bar, dando meu suor, cordas vocais e uns acordes antigos por alguns trocados e um copo de conhaque. Só para me entorpecer  e alucinar, lembrando dos meus anos dourados.
Minha inspiração se perdeu naquele outono em Paris.
Na cidade luz, seus sonhos deveriam ser transformados em realidade. Mas a realidade que me recordo é ver meu amor jogado às traças no meio daquela praça, e minha vontade de levar alegria e graça em minhas composições irem embora junto com ela. E assim iniciar meu delírio e alcoolismo.
Ela, que se dizia enamorada por minha ousadia e gentileza.
Ela, a quem prometi o céu e as estrelas – e algum afeto também.
Ela, que era minha referência e minha metade.
Ela se perdeu, assim como minhas melodias, no tempo. Guardada em um canto de minha infame memória, escondida no meu peito agora vazio e gélido. Por sua causa desisti de sorrir, desisti de escrever, desisti de ser.
Desejei não existir. Caíram minhas lágrimas, assim como as folhas daquele outono. E minhas esperanças são vãs... Não me restou nada do meu antigo eu.

Há somente dor, apatia e mesmice. E meu alcoolismo habitual.